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É um conto publicado na edição da WHSmith de Império de Tempestades. A história possui como ponto central a jornada de Chaol Westfall e Nesryn Faliq até o continente sul em um navio chamado Talhador de Ventos.

Sinopse

Chaol Westfall sempre se definiu por sua lealdade inabalável, sua força e sua posição como o capitão da Guarda Real. Entretanto, tudo isso mudou quando o castelo de vidro foi destruído, desde que seus homens foram abatidos e o rei de Adarlan o poupou de um golpe mortal, mas deixou seu corpo quebrado.

Sua única chance de recuperação encontra-se com os curandeiros lendários da Torre Cesme em Antica — a fortaleza do poderoso império do continente do sul. Com a guerra se aproximando de Dorian e Aelin, sua sobrevivência poderia estar com Chaol e Nesryn convencendo os governantes do sul a se aliarem com eles. Mas o que eles descobrem em Antica irá mudar ambos — e será mais vital para salvar Erilea do que poderiam ter imaginado.

Conto

Após duas semanas a bordo do Talhador de Ventos, Chaol Westfall ainda não estava inteiramente certo de como Dorian e Aelin haviam organizado para ele permanecer dentro da extravagante suíte do capitão. Ele não se surpreenderia com ambos se eles tivessem subornado ou intimidado o capitão do navio a ceder seu quarto — mas, com a cortês e fria distância com que o capitão tratou ele e Nesryn, Chaol suspeitava que a rainha de Terrasen fez questão de visitar o navio antes de partir para o seu próprio reino.

Uma suspeita que só foi solidificada pela impressão de mão queimada na mesa do outro lado do aposento.

Honestamente, ele teria preferido se eles apenas tivessem lhe dado uma pequena cabine. Principalmente por duas razões: a primeira, e talvez a pior, foi que isso só chamou a atenção para ele. A sua condição. Ele ainda não sabia como, exatamente, chamar o entorpecimento absoluto e a falta de movimento abaixo da cintura.

Mas ele só poderia suportá-lo graças à outra razão para querer um quarto menor: Nesryn. Com uma cabine maior, realmente não havia desculpa para ela ficar em outro lugar. E, apesar dele saber muito bem que ela poderia cuidar de si mesma, a ideia de Nesryn permanecer abaixo do convés em um navio cheio de homens endurecidos pelo mar fez com que ele rangesse os dentes.

Então ela ficou com ele. Aqui. Nesse quarto. Nessa mesma cama na qual ele estava agora deitado, observando o reflexo da luz solar sobre a ondulação da água contra o teto pintado de branco.

Ele não a tocou — não durante as noites que tinham compartilhado esta cama. Também não durante as horas do dia. Embora ele certamente tenha acordado a maioria das manhãs com a prova misericordiosa de que algo ainda funcionava abaixo de sua cintura.

Não que Nesryn tenha mostrado qualquer inclinação para tocá-lo também. Ele não tinha certeza se isso era uma benção. Se ele poderia suportar a humilhação certa de tentar sem o uso de suas pernas. Se ele poderia aguentar estender a mão para ela, apenas para ela rechaça-lo.

Ele sabia que Nesryn não pensava menos dele. Ela acreditava que a lesão era apenas temporária, e ele sabia que, mesmo que ela tivesse que bater nas portas da Torre Cesme, ela encontraria ajuda com seus famosos curandeiros.

Mas ele ainda notou a maneira como ela às vezes olhava para ele — com essa dor e piedade.

Ele queria gritar sempre que ela fazia isso. Sempre que algum dos marinheiros do navio tivesse o mesmo olhar enquanto eles o empurravam naquela cadeira infernal até o convés para um pouco de ar fresco. Outra razão pela qual ele tinha recebido a suíte do capitão: não exigia escadas para acessar o convés.

Ele tentou. Todos os dias ele tentava mover apenas um dos dedos dos pés. O silêncio vazio que o cumprimentava era mais aterrador do que os momentos em que enfrentou o rei. Até a morte que ele acreditava estar chegando tinha sido menos angustiante e insuportável do que o silêncio total de seu corpo.

Chaol soprou uma longa respiração e deslizou seu olhar para a mulher dormindo ao seu lado.

Os cabelos escuros de Nesryn se derramavam no travesseiro, seu rosto bronzeado suavizado com o sono.

Eles haviam sido amantes há mais de um ano, mas nunca haviam compartilhado uma cama até agora. Não passaram muito tempo juntos além do necessário para se divertirem.

Tudo com ela estava fora de ordem desde o princípio. Eles nem se tornaram amigos adequados até esta primavera. E eles certamente não eram amantes agora.

Ela nunca falava sobre isso.

Sua sobrancelha franziu um pouco enquanto dormia e ela se aninhou no travesseiro. O amanhecer havia irrompido apenas há alguns minutos. Eles geralmente acordavam com o nascer do sol para treinar de qualquer maneira que ele pudesse no convés, mas… ela deveria estar esgotada se dormiu com o deslocamento da luz. Ele poderia deixá-la dormir. Já que ele certamente não conseguia entrar naquela cadeira que o aguardava sem ela.

Chaol esfregou os olhos com o polegar e o indicador. Ele desejou poder voltar a dormir. Se Nesryn não tivesse se juntado a ele nesta jornada, ele poderia muito bem não ter se incomodado em sair da cama. Apenas para evitar os olhares. E evitar o constante e incessante lembrete de tudo o que ele não deu valor. O corpo que ele presumiu sempre o serviria.

Mas as coisas que ele veio a depender, as coisas que ele assumiu sempre seriam as mesmas, sempre estariam certas… elas também desapareceram. Elas desapareceram no momento em que Nehemia Ytger morreu, no momento em que aquele colar havia passado ao redor do pescoço de Dorian. No momento em que ele viu seus próprios homens, viu Ress, pendurados na cerca do castelo.

Chaol soltou uma respiração do fundo do peito.

Ele não havia dito a Nesryn ou Dorian que desejava estar entre eles — seus homens.

Que ele desejava que Aelin não tivesse deslizado o olho de Elena em seu bolso; que Rowan Whitethorn não o tivesse poupado do colapso do castelo de vidro.

Que, apesar de Dorian designar-lhe a Mão do Rei, ele ainda não era melhor do que um quebrador de juramentos, um mentiroso, um traidor.


O sol tornou-se implacável quanto mais perto eles navegavam das margens do continente sul.

"Isso só vai piorar", admitiu Nesryn enquanto ela ofegava ao seu lado no convés principal, depois que Chaol mencionou o calor pela segunda vez naquela manhã. Ambos já estavam profundamente bronzeados nas horas passadas aqui — embora ela lidava com o sol melhor do que ele. Seu rosto, o peito nu e as costas estavam salpicados de manchas de pele descamando de várias queimaduras solares.

"E será ainda mais quente em Antica, com o verão agora sobre eles", ela acrescentou, terminando seu conjunto de exercícios abdominais. Ela tomou um gole de um copo d’água ao lado deles antes de afastar seus pés no convés e prendê-los. A única maneira dele exercitar os músculos do estômago.

Chaol trincou os dentes e começou seu conjunto, seu corpo já dolorido dos exercícios fatigantes que eles haviam trabalhado. Tranquilamente — com calma. Nada como a altercação verbal que sempre acompanhava seus treinamentos com Aelin.

Ele se perguntou se isso o tornava um bastardo por não saber o que ele preferia.

Ele estava em sua sétima abdominal quando Nesryn disse: "Você está quieto hoje."

Ele parou no ápice da contração até seus joelhos, encontrando seu olhar escuro. Cautela brilhava naqueles olhos negros como a noite, naquele rosto amável e solene. Ele notou a forma como os marinheiros a olhavam. Especialmente agora que ela vestia roupas civis. Especialmente quando seu suor fez sua camisa branca grudar, sobrando pouco para a imaginação.

Chaol tentou não olhar para a camisa branca enquanto renovava suas repetições. "É o calor."

"Assim você disse."

Desafio, lustroso e frio, espreitava sob aquelas palavras. Ele o ignorou. O que ele realmente poderia dizer que não era óbvio? Ela estava segurando suas malditas pernas. E ela teve que ajudá-lo a usar a latrina.

Chaol contraiu-se para cima novamente, um fio de suor deslizando pelas costas, fazendo cócegas, cócegas — então nada. Passou por qualquer linha de demarcação e desapareceu. Ele fez outra contração, depois outra.

Seus amigos provavelmente se preparavam para um conflito com Morath e ele mal podia se exercitar sem assistência. E se esses curandeiros falhassem, se ele não pudesse andar novamente…

"É o suficiente", disse Nesryn quietamente. "Você fez o dobro."

Chaol obedeceu, se deitando de costas, um calor fervente no rosto, no peito nu.

Um peixe flutuando no sol…

Ele poderia vencer isso; ele poderia lutar contra isso.

Mesmo se o pensamento de Nesryn e o marinheiro qualquer que esperava para ajudá-lo a entrar naquela cadeira agora o fez querer rolar do convés para dentro do mar. Seu estômago queimava, seus braços doíam — mas ele apontou seu queixo para ela. "Próxima rodada."

"Está muito quente. Você terá insolação".

"Não sou inválido."

"Não, mas você também não está imune aos perigos do sol, então, terminamos".

Ele se sentou, segurando seu olhar enquanto ele rosnava, "Próxima. Rodada."

Eles estavam perto o suficiente para compartilhar a repiração e a dela agitou-se contra sua boca quando Nesryn disse calmamente: "Não." E se levantou de onde segurava seus pés.

Sem o peso dela, suas pernas deslizaram para fora — e apenas o aperto de seus músculos estomacais e as mãos esticadas no convés o salvaram de cair de costas. Seu rosto se aqueceu, mais quente que o sol de meio-dia, e ele se recusou a ver quais marinheiros o observaram.

Ela atravessou os poucos passos até a cadeira de rodas e cada gemido e chocalho conforme ela a rolava em sua direção era como garras arranhando seu temperamento. Mas ele deixou que ela e o marinheiro que estava esperando o levantassem até ela. E ele não falou, nem olhou para nada além da porta à frente, quando Nesryn o empurrou de volta para o quarto deles.

Ele também não falou por um tempo depois disso.


Como um passageiro — e como incapacitado — havia pouco a fazer durante o dia. Além de planejar suas reuniões inevitáveis em Antica e, quando isso ficava cansativo, ler o baú de livros que Dorian enviou junto com eles.

Sentado na grande mesa do capitão na suíte, Chaol examinou a lista de nomes que Dorian e Nesryn haviam fornecido. "O imperador", ele disse a Nesryn conforme o sol da tarde se afundava em direção ao horizonte, "tem consultores e conselheiros suficientes para constituir todo um exército."

"Ele governa um continente", disse Nesryn suavemente da espreguiçadeira perto das janelas manchadas de sal, onde ela lia um dos livros de Dorian. "Ele precisa de um exército de pessoas para gerenciá-lo. E ele é chamado de khagan, não imperador.”

Chaol franziu a testa para as folhas de informações. A cidade-deus era o coração desse império, a poderosa fortaleza do khagan por trezentos anos. O continente se esticava da costa árida do norte, que Antica ocupava, para os vastos estepes de pastagem e desertos no leste, onde a linhagem do khagan reinara como senhores de guerra nômades antes de se transformarem em conquistadores, aos exuberantes arrozais e selvas no oeste, até as altas montanhas que se estendem até um mar gélido no sul. Os khagans tomaram tudo — e construíram várias cidades por todo lugar, centros-chave para comércio e aprendizagem e invenção. A magia não era tão abundante como era em sua própria terra — embora seus curandeiros fossem extraordinariamente dotados.

Chaol supôs que, para um povo conquistador, ter uma abundância de curandeiros provavelmente ajudou na sua ascensão. E esperava que ajudasse sua própria cura.

Contudo, a outra coisa, a maior coisa, que ele precisava… "Ele tem seis filhos", Chaol disse a Nesryn. "Quem comanda os exércitos do norte?" O que seria o mais próximo do Mar Estreito — para ajudar Adarlan.

"O segundo filho mais velho. Sartaq. Aquele que provavelmente receberá a coroa."

A sucessão no khaganate não era determinada por nascimento ou gênero. Não — era determinado por quem o imperador pensava que era o mais forte. Talvez outra razão pela qual a dinastia tenha durado. Menos herdeiros eram descartados; melhores, erguidos. O último khagan tinha sido mulher — uma poderosa imperatriz que tornou a escravidão ilegal, pagou muito dinheiro para trazer artistas de todos os tipos para enriquecer suas cidades e abriu rotas comerciais com inimigos anteriores, enchendo os cofres do império até transbordar. Ela escolheu seu quinto filho — o atual khagan — para tomar seu trono, apenas alguns dias antes de morrer na idade madura de noventa e seis anos. Já casado com filhos próprios, o khagan garantiu seu reinado matando os irmãos que haviam desejado seu trono. Imediatamente. Junto com quaisquer descendentes deles.

Apenas três outros sobreviveram seus assassinos — um deles fugindo para o exílio e os outros dois juraram fidelidade. Começaram por ordenar que os curandeiros da Torre Cesme os tornassem inférteis.

Nenhuma ameaça à linhagem.

Os khagan sabiam que a maioria dos impérios não eram destruídos apenas por forças externas, mas por fraquezas internas. Uma vasta linhagem real oferecia muitos contendores para o trono, muitas chances de facções divisórias. Chaol se perguntou como tinha sido crescer naquela casa — ser um potencial herdeiro khagan e saber que seus irmãos poderiam um dia matá-lo.

Embora Chaol supusesse que não seria muito diferente de sua própria educação.

Sua atenção se dirigiu ao grande mapa pintado na parede. Para Anielle.

Seu pai tinha ouvido falar de seus ferimentos? Sua mãe tinha? Anielle estava tão perto de Morath. Muito perto. Ele rezou para que seu pai tirasse sua mãe dali — também levasse seu irmão Terrin — antes que fosse tarde demais. O pensamento de ambos nas garras de Morath…

"Não temos nada a oferecer ao khagan", disse Chaol quietamente.

Nesryn colocou o livro no colo.

Chaol continuou quando ela se manteve em silêncio: "Nós já negociamos com eles, já concordamos em não incomodá-los se eles não nos incomodarem… Não há incentivo para se juntar a esta guerra, para enviar um exército capaz de martelar Morath."

"Eu pensaria que a ameaça de Morath virar seus olhos sobre eles seria incentivo suficiente", disse Nesryn, também estudando o grande mapa.

"Seu império é maior. Morath pode parecer inconsequente.”

"Não com aqueles anéis e coleiras — não se eles tiverem uma legião aérea de bruxas que podem saquear cidades."

O estômago de Chaol se contorceu. "O khagan pode achar mais rentável se aliar a Morath."

"Ele nunca faria isso", disse Nesryn com força. "Nós não nos inclinamos diante governantes estrangeiros e, certamente, isso seria o preço de se aliar a Morath. Mas o khagan ainda precisará ser convencido da ameaça — seus filhos precisarão ser convencidos da ameaça."

Chaol tamborilou um dedo na mesa. "E quanto à ameaça que nossos amigos colocam?"

Uma sobrancelha escura se levantou.

"Dorian tem magia — mas Aelin… Como eu explico Aelin Galathynius?"

"Ela lhe deu licença para negociar em seu nome. Eu suponho que isso significa que você é livre para explicá-la de qualquer maneira que nos beneficiará ."

"Uma assassina transformada em rainha que pode destruir castelos e matar reis quando quiser?”

Nesryn estudou a capa de seu livro. "O khagan emprega muitos espiões. Eles podem já conhecer a parte da assassina — e seu envolvimento com você."

"Você acha que isso prejudicaria nossa causa?"

"Somos livres para amar quem queremos no continente sul", disse ela. "Muitos não se preocupam com votos de casamento. Mas Aelin Galathynius compartilhou uma cama com Dorian Havilliard, com você, e agora com o príncipe Rowan. Eles podem ter… perguntas."

"Ela não compartilhou uma cama com Dorian. Não dessa forma."

"Foi um emaranhamento romântico independentemente."

Ele apertou seu maxilar.

Ela abriu o livro novamente com uma casualidade fingida. "Você… você ainda guarda esperança por ela?"

"Não", ele disse, sua voz monótona e vazia. "Ela mudou de ideia; ela mudou — como pessoa. E mesmo que ela quisesse estar comigo, eu não teria deixado Dorian, e ela teria ido para Terrasen e nunca teria funcionado. E talvez nós ficássemos um pouco destruídos por isso, mas em um ano ou dez… Rowan teria estado lá. Esperando por ela, todo esse tempo."

"Essa é uma visão bastante romântica disso." Mas seu olhar subiu para seu rosto — para a cicatriz em sua bochecha, cortesia de Aelin.

"Ela tem permissão para se apaixonar e desapaixonar quando ela quiser."

"E você se desapaixonou por ela?"

"Esta primavera e verão foram um turbilhão", ele disse com força, olhando para a mão queimada espreitando sob uma pilha de papéis na mesa. "Entre Dorian e tudo o que aconteceu… Tudo se desfez. Se o preço de obter Dorian de volta foi perdê-la, então, que assim seja."

"Você não respondeu minha pergunta."

"Estou aqui com você, não estou?"

"Sim, mas isso não significa que você deseja estar."

O instinto o fez se afastar da mesa — para ficar de pé. E sua raiva quando seu corpo se recusou a se mover, quando suas pernas não responderam…

"Eu deveria me deitar na cama e chorar sobre isso? Que eu não era o homem que ela queria? Eu deveria lamentar o fato de que os sonhos que eu tive, os planos que fiz, eram todos para uma mulher que não existia? Amar uma assassina sem responsabilidades é completamente diferente de amar uma rainha com um reino e um mundo para cuidar. Será que eu a amaria se eu soubesse desde o início o que ela é?” Ele balançou a cabeça. "Se a conhecesse agora… meu primeiro instinto teria sido proteger Dorian dela. Imagino que o khagan sinta o mesmo."

Suas palavras afundaram, uma a uma. Ele acrescentou mais calmamente, passando uma mão sobre seu rosto, "Essa é a diferença. Celaena era uma fração de Aelin — tanto boa quanto ruim. Mas Aelin… Ela é Celaena e ela é rainha e ela é a Portadora do Fogo. Eu me apaixonei por uma faceta e entrei em pânico quando percebi que era uma fração do todo — quando eu vi aquele poder, aquela herança e… Não fazia parte dos meus planos." Ele olhou para o mar brilhando por trás dela, o vento chicoteando as ondas. "Rowan Whitethorn viu tudo. Desde o momento em que a conheceu, viu Aelin por inteiro. E ele não estava com medo. Eu não culpo nenhum deles por se apaixonar. Eu não a culpo." Ele soltou um suspiro estremecido. "Eu era o que Celaena precisava depois de Endovier. Mas Rowan é quem Aelin precisa — para sempre."

"E quanto ao que você precisa?" Nesryn inclinou a cabeça, aquele cabelo escuro deslizando ao longo de seu pescoço e mandíbula.

"Eu nunca estive em posição de exigir as coisas que eu preciso. Essa viagem… é a primeira."

Ela caminhou até ele com um silêncio felino, empoleirando-se na borda da mesa diante dele. Ela olhou para ele por um longo momento, o bater das ondas e gemido da madeira o único som.

Ele não se moveu quando Nesryn estendeu a mão esguia e afastou o cabelo da testa dele. "Você dá e dá e dá", ela murmurou, "Quando será suficiente?"

"É minha honra servir."

"Eu não quero dizer dessa maneira. Quando você já foi egoísta?"

"Pare de tentar me fazer ser algo que não sou."

Ela baixou a mão de seu cabelo, o canto de sua boca puxando para cima. "E o que é isso? Um bom homem?"

"Pessoas morreram por minha causa."

"Eles também morreram pela minha mão e a de Aelin e muitos outros. E isso é guerra. Um grande número morrerá devido as suas escolhas ou pela sua mão também."

"Não se eu não puder andar."

"Você vai andar de novo.”

Ele encontrou aqueles olhos escuros. Uma determinação brilhante e inabalável brilhava neles.

"Você caminhará novamente", repetiu Nesryn. "E você lembrará que você é um bom homem independentemente, um homem corajoso e altruísta. Você lembrará que talvez você não tenha magia, mas há um forte poder na força das pessoas comuns. Você se lembrará disso…" Seu peito arquejou e ela se estabilizou com um longo suspiro. "Você se lembrará, Chaol", disse ela, "que o mundo precisa de homens como você. Na guerra e depois dela. Especialmente depois dela."

"E quanto a você?"

"E quanto a mim?"

Seu coração trovejava conforme ele traçava um dedo sobre a parte de trás de sua mão, os nós de seus dedos brancos enquanto ela segurava a borda da mesa. "Onde você se encaixará nisso?"

"Eu irei onde mais precisarem de mim."

"E se isso for ao meu lado?"

"Então é aí que eu vou estar." Seus olhos escuros cintilaram. "Mas eu não te prendo a nenhuma promessa, Chaol. Eu não espero nada."

"Por quê?"

"Porque eu sei quem eu sou — o que sou. Você se voltou para mim no verão passado, depois que Lithaen deixou você pelo lorde Roland. Você se voltou para mim novamente nesta primavera, depois de Aelin. Não sou a primeira escolha. Mas, por enquanto, satisfaz meus próprios interesses estar aqui. Eu gosto da sua companhia — gosto de você."

Ele não tinha certeza de como a conversa havia mudado para isso. "Você — você não é um tipo de prêmio de consolação."

Ela soltou uma risada baixa e se inclinou para beijar o topo de sua cabeça. "Você me escolheria se Aelin tivesse corrido de volta para você? Você notaria a minha existência?" Ela se afastou quando ele não respondeu, um sorriso modesto em sua boca.

Ela fez menção de se afastar, mas ele agarrou seu braço.

Puxou, na verdade, conforme ele a trazia até ele e reivindicava sua boca.

Nesryn enrijeceu, mas não recuou. Então ele suavizou seu beijo, afrouxando seu aperto em seu braço, deslizando sua outra mão em volta do pescoço dela para descansá-la contra sua nuca. Segurando-a contra ele enquanto ele beijava o canto de sua boca, o arco de seus lábios. Incitando beijos, explorando a forma de sua língua, até que ele mordiscou seu lábio inferior.

Nesryn fez um pequeno som e finalmente se abriu para ele. O calor de sua boca, o deslizar de sua língua conforme se encontrava com a dele…

Calor e aço e seda — estar com ela sempre foi assim. Como puxar para trás uma cortina de seda para encontrar uma tempestade rugindo abaixo. Constatando que ele não tinha poder para resistir perder-se nela.

Ele inclinou sua cabeça ligeiramente para reivindicá-la mais completamente, a mão que segurava seu braço deslizando para descansar em seu quadril.

Ela não precisou de encorajamento. Suas mãos percorreram seus ombros, apertando seus músculos, conforme ela o montava. Esbelto — seu corpo era tão esbelto quando ele a tocava assim. Ele esquecia tão facilmente o quanto ela era menor que ele, o quão delicadamente construída era.

Suas mãos vagaram por suas costelas, suas costas e ele rosnou em sua boca quando ela se pressionou contra ele. Sim, aquela parte dele certamente funcionava.

Calculada, fria Nesryn — ela era como aço fundido em seus braços conforme ele devorava sua boca e depois afastou seus lábios para provar seu pescoço, provar sua pele. Sal e sol e fumaça…

Ele deslizou uma mão pela sua lateral, então, apalpou seu seio. A mão dela pousou no topo da dele, orientando-o a apertar com mais força, a embrulhar seu seio em sua palma conforme ele lambia a coluna de sua garganta.

O ruído que saiu dela, profundo e sem fôlego, o fez ver vermelho. Se suas malditas pernas funcionassem, ele teria se levantado da cadeira e esticado-a naquela mesa. Mas elas não funcionavam.

E até mesmo estar aqui nesta cadeira… mesmo se eles chegassem à cama…

Como ele poderia experimentá-la em todos os lugares que desejava sem precisar de sua ajuda?

Ela sentiu sua pausa. Sentiu os pensamentos traiçoeiros que o agarravam.

Nesryn agarrou seu rosto, sua respiração irregular. "É temporário, e vamos lutar juntos." Ela se inclinou, mordiscando seu pescoço, sua orelha. "Eu posso fazer tudo."

Suas costas se enrijeceram. "Eu não quero que você faça tudo."

Mas seu dedo se aproximou dos botões de sua calça. "Eu quero."

Por um instante, sua mente lampejou entre esta cadeira e um armário de vassouras no castelo de vidro. Onde foi tão fácil — tão estupidamente fácil — levantar Aelin contra a parede e tomá-la. Onde ele ria enquanto fazia. Seu estômago se contorceu, náuseas ondulando através dele enquanto olhava aquela marca de mão queimada na mesa.

Nesryn deslizou sua mão sob a cintura de suas calças. Ele pegou seu pulso e o apertou levemente. "Pare."

Ela obedeceu. No momento em que a mão dela estava livre, seu rosto ficou imóvel e solene. Ela permaneceu em cima dele, mas…

"Não dessa forma", disse ele. "Eu não quero que seja assim." Ele não conseguia ler seu rosto quando ela perguntou suavemente, "Você pode… sentir, não pode?"

"Deuses, sim." Ele estava tão dolorido que achava que iria entrar em combustão. "Essa parte ainda funciona."

"Nós podemos nos mover para a cama."

"Não."

Mais uma vez, nenhuma onda de emoção naquele belo rosto. Como se ela tivesse soprado a vela que as continha.

Lentamente, ela se levantou, endireitando sua camisa. "Está quase na hora do jantar. Eu irei buscar a comida."

"Nesryn."

Mas ela já caminhava em direção à porta dupla, suas costas um pouco mais rígidas do que o habitual.

Ele abriu sua boca para dizer algo, mas as palavras falharam com ele. Como ele poderia explicar? Que era humilhante? Que ele não queria ficar lá como um inválido enquanto ela o montava? Que ser passivo, ser obrigado a pedir às coisas…

Ele odiava palavras, sempre preferiu ações. E isto…

Ele ainda não tinha nada a dizer quando ela fechou a porta atrás de si mesma.


Eles mal falaram durante e após o jantar.

E quando ela o ajudou a deitar na cama e depois se arrastou por conta própria… ela ficou o mais longe possível. Seus braços enrolados em torno dela. Ele sabia que ela não estava dormindo — sabia que sua respiração era muito rasa, muito quieta.

"Não tem nada a ver com você", ele disse com voz rouca. "Se eu pudesse, eu teria… Eu já teria tomado você de todas as maneiras. Mas eu não posso e não quero me conformar com uma versão reduzida…"

"Você não sabe se seria assim."

Suas primeiras palavras para ele em horas.

"Você nem sequer tentou descobrir", ela continuou, suas costas ainda para ele. Ele suspirou rispidamente pelo seu nariz.

E o som deve ter acendido seu temperamento porque ela finalmente se virou. "Você não pode parar de lutar. Você não pode parar de viver. Ou você nunca sobreviverá ao que está por vir."

"Diz a mulher que mal sorri e ri."

"Não confunda minha reserva por falta de sentimento. Não pense que, porque eu não proclamo minhas emoções por toda parte, significa que eu não as tenho. Que eu não tenho esperanças e medos e desejos. Eu tive que aprender a ser calma, a ser quieta e distante… porque crescer em uma cidade onde a maioria das pessoas estava predisposta a não gostar de mim devido a minha herança, eu tive que ser essas coisas. E agora que nos dirigimos à guerra, eu acho que essas coisas foram presentes. Mas eu não excluo o mundo. Eu não encerro a vida. E eu acho que você estava fazendo isso por muito tempo, muito tempo antes de sua espinha ser quebrada. Antes mesmo de Aelin aparecer.”

Ele abriu a boca. Contudo, Nesryn já havia se virado.

Ele refletiu sobre suas palavras, seu rosto desconfortavelmente quente. Ela estava certa. Claro que estava certa.

Ele tentou mover os dedos dos pés. Tentou fazer qualquer coisa abaixo da cintura. Somente silêncio.

Três dias. Três dias até chegarem ao porto de Antica.

Ele não a despertou para expressar sua conclusão uma hora depois. Em vez disso, ele novamente a observou dormindo, aquele rosto encantador gentilmente adormecido.

De qualquer forma, era estúpido dizer. Não seria o que ela queria ouvir. Que mesmo que ela tivesse um ponto sobre viver… esta guerra poderia muito bem terminar com todos eles mortos de qualquer maneira. E ele lutaria como o inferno para evitar Dorian desse destino, para salvar Adarlan, mas… ele realmente não via o motivo de se apaixonar pelo mundo. Não quando poderia ser tomado dele. Não com tantos perigos esperando para destruí-los.

O sono acabou por reivindicá-lo.

Mesmo com as palavras entre eles, quando ele acordou ao amanhecer, Nesryn estava aninhada contra ele, sua mão aconchegada contra seu peito nu. Direto sobre seu coração — como se ela o segurasse suavemente em sua palma.

Chaol colocou a mão sobre a dela, ouvindo sua respiração estável e inalterável.

Ele iria lutar — mas... ele não estava certo de como começar esse negócio de viver.